quinta-feira, 6 de outubro de 2011

NA TRINCHEIRA

À frente: um campo vasto - terra de ninguém -
porque a todos pertençe;
Às costas: o que passou - e não pode ser mudado -
dores, perdas e lembranças;
Dentro da trincheira: resistência, apenas isso.
O inimigo ruge, qual os raivosamente cinco mil,
que silenciaram Canudos.
Combato, luto, nem sempre o bom combate.
Mas, ao ver meus camaradas,
me empertigo, engatilho o rifle - de minha caneta - e continuo.
Pois a hipocrisia, o medo e a insensibilidade
são coronéis de muitos jagunços.
O lema, retroceder nunca e render-se jamais
é dito pelos que já morreram,
em suas lembranças vivas.
Que nos fazem engolir o choro
e continuar atirando - palavras -
Meus inimigos não desistem nunca.
Meus amigos também não.

sábado, 25 de junho de 2011

A FESTA ACABOU

Não adianta, a festa acabou

Não tem mais graça

Aquelas velhas piadas sobre mulheres e os amigos chatos

Têm um riso amarelo agora

Pois são os chatos que estão com as melhores, lá fora

E nós estamos ficando pra trás

Não, não insista, faz tempo que a última dose já veio

Fomos nós que nos enganamos

Acreditando que não acabava

Mas acabou

Todos os outros já foram

Só nós é que ficamos repetindo tudo

Vamos embora, a vida nos espera

É hora de crescermos, enxergar que lá fora

A vida continua

Diferente daqui de dentro

Onde tudo é do mesmo jeito

Todos os carros já foram

Só nos resta ir a pé

O melhor já passou, foi tolice ter ficado

Não nos trouxe de volta o momento de graça e alegria

Esses momentos duram pouco, é inútil querer estendê-los

É só no início da festa que acontecem

Vamos embora

De cabeça baixa mesmo, porque a vida é séria

CHÃO DE GIZ: TEOREMAS

A análise que se segue é apenas uma tentativa, não é um tratado. Porque é impossível ouvir Chão de Giz de Zé Ramalho e não ficar pensando numa teoria pra letra da música, simples e agradável exercício mental. O autor discrimina uma realidade de migração, em meio à fuga de sentidos, em que a migração é dada pela falta de perspectivas do homem maduro diante de suas realidades. O fracasso e a decepção que acompanham a personagem em sua constante “retirada” surgem ao longo do texto, proporcionando nossa observação na medida em que observamos elementos como a inutilidade e a velhice da sua caminhada.

O personagem é o retirante, que está sempre fugindo do lugar que ele não reconhece como seu, mas que o empurra sempre, a permanecer nesse contexto de uma realidade paralela. Seus companheiros nessa viagem são sempre os mesmos, os fracassados, que ele encontra pelo caminho e são como ele, perdedores na luta da vida, são os nocauteados pelo sistema: mal-amados, velhos, pobres e fracos. Da mesma maneira que o personagem que se exprime como uma prostituta ou garoto de programa, da mesma maneira cansados e desiludidos com a (des)continuidade de sua jornada perdida.

A tríade de condicionantes que a viagem do personagem denota são o desejo, a necessidade e a vontade, todos os três reprimidos e continuamente negados ao mesmo tempo em que vigoram pelo conjunto do enredo. A memória do que foi vivido e desperdiçado provoca um questionamento sobre o tempo perdido, à falta de solução só resta a fuga, a alienação, em que o conceito de carnavalização pode ser utilizado por demonstrar que é sempre a alternativa mais usada, por ser a última que sobra àqueles que não conseguem adaptar-se e fazer parte do sistema, a fantasia nada mais é que uma maneira de não olhar para aquilo que fere, tornando-o enviesado pela profusão de cores que sobrepôem-se.

A letra de Zé Ramalho exprime a fuga e o refúgio do inconsciente, que procura desviar-se de seu destino, ao mesmo tempo em que acredita ser impossível essa manobra, provocando uma dobra na interpretação que se faz de seu sentido literário, dobra que se repete na medida em que se configura uma leitura progressiva de seus sentidos.

UMA HISTÓRIA SIMPLES

Por volta das seis da manhã acordou, deu um beijo em sua esposa e, enquanto observava ela acordar-se, admirava como conseguia manter-se bonita mesmo nas ações mais corriqueiras.

Seis e trinta. Tomado banho veste-se enquanto se empolga com o cheiro do café e os cabelos em torno da boca da mulher, que ela os retira com um balanço de cabeça, tudo isso visto da brecha entreaberta da porta do quarto provoca uma sensação tantas vezes experimentada: agarrá-la e suspender a rotina daquele dia por breves quarenta minutos. Mas hoje não tem como, chegarão encomendas importantes que ele tem que dar baixa no escritório e o trajeto àquela hora é difícil, por causa do trânsito.

Tudo isso pensa enquanto a beija no pescoço, naquela parte de trás conhecida como cangote, sentindo prazer ao vê-la arrepiar-se, ao mesmo tempo em que decide guardar seus desejos para o fim do dia, onde serão mais importantes para esquecer do trabalho e se preocupar com o futuro. Filhos são uma grande responsabilidade, mas não era má idéia ter uma criança correndo pela casa, precisando de carinho, atenção e crendo nele como em um sábio. Mas afinal de contas, durante toda a nossa existência não é a segurança de alguém que sabe mais do que nós e que possa nos encher de carinho, um desejo por vezes inconsciente? Acorda de seus devaneios com a pergunta sobre a qualidade do café.

A ida até o portão é difícil, mesmo porque aquela camisola tinha sido uma arma comprada contra ele mesmo. Fecha os olhos, pensa nos pedidos que têm que ser feitos à matriz da firma ainda pela manhã e a beija docemente na face, correndo para o trabalho.

Sete e meia. Como esperava, a mercadoria estava chegando e levou boa parte de suas preocupações para o inconsciente. Quando conseguiu uma folga lembrou-se que tinha uma relação de pedidos a fazer. Como estava com o telefone nas mãos, não custava nada um agrado: ligou apenas para dar bom dia, perguntar o que ela estava fazendo e o que tinha para o almoço, todas as perguntas bem menos importantes que a vontade de ouvir aquela voz doce, meio rouca pelo sono interrompido, mas de uma ternura capaz de deixá-lo lesado.

O restante do dia transcorre sem maiores novidades, a não ser pelo almoço em casa que não vingou por causa de um problema na já famigerada relação de pedidos. Para desculpar-se, aproveita que cai uma chuva fina e constante, passa na floricultura e compra um buquê de flores do campo. “Mas vão ficar lindas naquele vaso azul!”, pensa na resposta enquanto paga e vê os olhos dela cheios de alegria pelo mimo feito.

Ao abrir o portão não consegue chegar até a porta, pois ela o recebe com um sonoro beijo nos lábios como só os namorados de primeiras semanas fazem e preocupa-se dali em diante apenas com seu infinito microcosmo familiar.

No noticiário das oito e meia sobram sangue e lama, o que o faz pensar se não seria errado preocupar-se tanto consigo mesmo e passar a preocupar-se mais com o mundo fora da sua casa. Uma história simples como a sua, deveria na verdade ter uma maior contemplação com o nível de violência, organizada ou não, a crise política e a relação entre esses temas. Enquanto pensa suas idéias ela cochila em seu ombro, no sofá da sala, após o jantar.

Chega à conclusão de que deveriam a mídia e o mundo buscar no cotidiano histórias simples como a dele, para que a violência social , política e física não tivessem tanto espaço assim na vida das pessoas, tornando-as menos humanas e mais autômatos, preocupadas apenas em desempenhar suas funções no menor tempo possível.

Recorda-se de uma crônica do Rubem Braga, esquecido dos jornais num tempo em que o imediatismo é imperativo. A crônica fala do quanto é impróprio para a mídia o chamado cotidiano, pois este abarca um humanismo que deve ser esquecido, em seu lugar o substituto ideal aparece em notas vermelhas de sangue: histórias tristes onde a desgraça familiar é o alvo. Da mesma forma a corrupção lidera os noticiários, este por sua vez faz ao homem comum enxergar o quanto é inútil ser correto e ético, tanto no plano profissional quanto no pessoal.

Pensa e repensa em tudo isso até chegar a uma conclusão, o melhor a fazer naquele momento, como em todos os outros pelos quais já passou não é buscar comparativos para a solução dos problemas no exterior. O melhor a fazer é desligar a televisão, pegar a mulher nos braços e levá-la entre beijos e murmúrios carinhosos até o quarto, onde uma noite feliz os aguardava, sendo todo o resto uma simples História.

domingo, 19 de junho de 2011

DAS SIMPLES DIFICULDADES

Porque?
Foi tudo que consegui dizer, depois de ter visto seu olhar fugindo. Não poderia ter sido diferente, se apenas um de nós não quisesse brigar? Porque que tinha que ser eu a te buscar, tentar te encontrar em teus próprios problemas, se disso eu nada entendia, pelo motivo simples e banal de não exergá-los. Eu te amava demais, passado preterido por nossas ações em conjunto, que só construíram muros e fachadas, muitas vezes luminosas. Criando ilusão no claro enigma do engano poderíamos tanta coisa, que agora alegar só se torna ridículo. Amor ao contrário é Roma, refrência de controle, poder, espetáculo e dominação, Panis et circensis. Sempre vão existir os dominados, os que se deixam dominar por se conhecerem mais fortes, já que, amor mesmo, é uma invenção burguesa que justifica uma série de compromissos comerciais: presentes por datas que na verdade só tem importância psicológica pelo que representam de compra e venda de afetos mútuos.
Não foi porque eu quis muito menos porque vc achou necessário e certo. Ningúem é inocente pelo que comete acreditando fazer o certo, pois a verdade é um conceito vago e mutante, de acordo com o interesse de quem a julga. Somos culpados por um juiz e algoz que tem no tempo que separa o que nem mesmo ele foi capaz de unir, o executor de uma sentença irreversível. Pra sempre, a Deus.

sábado, 18 de junho de 2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A INSOLUBILIDADE DAS REDES SOCIAIS

Criado pra ser uma forma de união entre pessoas do mesmo círculo de amizade, amplificando as possibilidades de se encontrar os amigos dos amigos e assim criar novas amizades, além de permitir que as opiniões sejam disseminadas de forma mais democrática e intensa, as redes sociais tornaram-se uma ferramenta política de grande importância nos dias atuais, pois têm o poder de constituir um modo de arregimentar bandeiras mais forte que os jornais e a mídia como a conhecíamos. Mesmo porque a mídia em geral, por ser uma concessão política e por esse motivo comprometida com grupos específicos, é tendenciosa em relação ao que lhe interessa. Já a internet vai de encontro a essas questões, pois é democrática em sua essência, permitindo que todos comentem e opinem sobre tudo, criando assim um espaço livre e independente, sempre. O exemplo mais claro e atual desse aspecto é a chamada Primavera Árabe, que constituiu uma maneira de desconstruir o poder das ditaduras do Oriente Médio através de movimentações que se originaram em redes sociais e se consolidaram como manifestações em busca daquilo que a internet lhes dá em profusão: liberdade, ainda que tardia. Seja em Natal, no Egito, ou aonde quer que haja praças, talvez nunca as de alimentação, outras primaveras foram lembradas e continuadas, pois como diz a música amar é mudar as coisas.